terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Desapego


 Desfiz-me, ainda que por alguns instantes, desfiz-me de mim e me fiz alheia, me fiz outrora, me fiz verão, sem medo, me fiz toda lembrança, toda uma, toda ninguém! Reuni, então, todos os pedaços que me pareciam pendentes e presos nas angustias do meu ser, juntei cada saudade com lembrança, cada medo com angústia, cada resquício de alegria com sonho de um futuro; sai pela casa juntando bilhetes, recolhendo fotos com sorrisos longos, e presentes tão alheios quanto eu! Tentei, ainda que no turbilhão da rua, me fazer estéril dos sentimentos e jogá-los ou fazê-los despencar, do nono andar! Inútil! Apegar-se aos detalhes é fazer deles mais do que lembranças e, por assim o ser, deixá-los ir é me deixar ir também, posto que eles me fazem ser quem sou. Como posso, então, tratá-los como objetos e me tratar como quem os porta? Como se fosse a aliança que uniu o desapego com a angústia? Como posso eu, atirar e tirar de mim um pedaço que outrora fora tão bonito? Talvez esse apego seja mais bonito nas palavras do que nos traços e nos gestos, então me retifico: livro-me de todos os bilhetinhos, atiro todas as uniões instáveis, apago todas as fotos, porque os melhores momentos eu guardei na retina.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Tal qual Baleia

Ana preservava em si discursos inócuos, pensava que a persuasão fosse mais relevante que os atos. Em verdade, Ana tinha medo de reter-se na caligem. Buscava a poesia, tudo era metáfora, tudo era flores. Fazia da vida um grande jogral; contava o tempo como quem cantava o mundo e cantava o mundo como quem devaneia nas irrealidades de um sonâmbulo.


De fato, Ana ia. Rumo a quê, rumo a quem, não sabia! Mas continuava numa insistência em tempos que balanceava entre findos e infinitos: Ana mediava os tempos e resguardava os assombros! Receava e incumbia-se disso! Mas, circular como a vida o é, apaziguava-se em si, e se continha! 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Metade

Minuciosamente as regras a compunha: Não andava sozinha pela rua depois das dez da noite, roupa curta dava visibilidade aos estupradores, roupa muito comprida a fazia uma pessoa que não ama seu corpo, se se preocupava muito com a beleza era fútil, se se preocupava muito com a inteligência e livros era mal amada, se era evangélica era tapada, se era ateia era anticristo.  Transformou-se, então, em uma pessoa meio termo, nem alegre nem feliz, nem com frio nem com calor, nem bonita nem feia, nem inteligente nem burra! Meio termo! Quase uma coisa ou quase outra, nunca uma coisa completa, nem duas coisas completas, nem nada completo. Ela era metade... De quê? Não sei! De quem? De todos! Todas as metades que dera pra cada um, restando a outra consigo e pegando do outro para si. Era metade! Nem colando todos os pedacinhos alheios, conseguiu ser inteira!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

... Não é tarde!

Era tarde... Aliás, era cedo! E não porque já era quase manhã, mas porque era cedo demais para florir... mal acabara o inverno! Mas, nunca se sabe quando dois olhos se cruzarão, duas mãos se unirão e duas pessoas se implicarão para... Bom! Não sei para quê! E aí, quando isso acontecer, o inverno ficará menos frio, os botões de flores parecerão toda a primavera, e as músicas melodramáticas farão sentido. A única coisa que não faz sentido é tudo isso! Afinal, qual é o verdadeiro sentido de atribuir uma pessoa a nossa música favorita? Depois a paixão acaba, a pessoa te trai e a música, junto a raiva, ficam!

Não importa! Já disse Fernando Pessoa "Todas as cartas de amor são/ Ridículas.
(...)Mas, afinal,/ Só as criaturas que nunca escreveram/ Cartas de amor/ É que são/ Ridículas."Então, mesmo sabendo dos riscos de ser machucado, a gente cobre os olhos, descobre o coração e descobre a beleza da vida - não a relevância constante que damos a coisas que não o são, mas essa que deixa um sorriso bobo no canto da boca.

... Era cedo e ainda o é! Nunca é tarde para aderir sentimentalidades em poemas de Vinícius de Moraes, nem para se emocionar ouvindo músicas clichês que acreditamos terem sido feitas para nós, tampouco para nos emocionarmos com uma visita inesperada em uma tarde que terça feira. Não, não é tarde! É simétrico.


segunda-feira, 10 de junho de 2013

Prioridades

... Quem e o que é realmente importante na vida? Em primeiro momento, a resposta parece ser fácil e, estabelecer uma ordem para as relevâncias sai como frase feita, pensaríamos em família, amigos, amores, vícios... No entanto, dentro das importâncias citadas, como classificá-las em suas especificidades? Enquanto podemos classificar de forma abrangente, é simples: Amor é o que temos de mais importante. Tudo bem, aceito como verdade por também considerar, mas o amor é tão vasto e tudo parece estar tão intermitentemente ligado a ele!  Amo minha família, meus amigos e, se são vícios, é porque amo o que o faço para sê-lo, seja beber, fumar, jogar videogames, comer, ou qualquer outro verbo que expresse ação.

E quando temos que escolher entre a pessoa que estamos ficando ou namorando e um amigo? Entre ir ver os pais ou passar à tarde em um churrasco bebendo com a galera? Entre beber aquela cerveja ou estudar? Entre entrar de dieta ou  passar a tarde comendo doces e vendo filme? Quando temos que sermos mais específicos quanto as nossas prioridades e as nossas necessidades, tudo se torna mais agonizante, e deixamos de usar somente nossas emoções e passamos a utilizar nossas razões. Mas... E quando nossas emoções falam mais alto e deixamos de seguir o que deveríamos, por razões lógicas, e seguimos por onde sabemos que dará errado, mas é o que queremos naquele momento?


Não estou aqui pra fazer uma lista com as nossas dez prioridades, muito menos com as sessenta e quatro coisas pra se fazer antes de morrer, ou antes de sair da faculdade, ou antes do diabo a quatro (acho que cada um é autossuficiente o bastante pra estabelecer o que se tem que fazer, sem listinhas alheias, as pessoas são diferentes, logo, suas necessidades também).  Tampouco pra dizer que fazer a dieta é melhor do que passar a tarde comendo doces, já que temos que nos precaver por questões de saúde, beleza e afins! Talvez eu só esteja pra levantar essas perguntas que eu mesma não tenho resposta, para que eu me force a pensar e reestabelecer, agora conscientemente, minhas prioridades, meus intuitos, minha vida. Talvez sejamos bonecos nas mãos do nossos instantes.

sábado, 4 de maio de 2013

'-'

Oi! Meu nome é Ana e eu sou uma ordinária. Eu costumava ser, apenas, dessas que comem, rezam e bebem – e com ênfase no primeiro e último verbo. Agora, me perco na literatura, me encontro no filme, e acho que sou uma ordinária. Não me casei, não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Em contrapartida, fiz das raízes arrancadas do solo, a esperança de brotar. Eu costumava ser a expressão que acata, e agora voltei a ser o que nunca fui, voltei a ter o que nunca tive: a instabilidade. Não sei de quem é esse rosto que o espelho reflete e, tampouco, o que pode uma criatura entre tantas criaturas, mas insisto nas práticas de cultivar rosas e rimas. Afinal, é como se fosse um precipício: A gente se joga torcendo para que o chão nunca chegue!

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Sobre curso e faculdade


Dentre todas as minhas decisões, as mais importantes sempre tiveram influência do meio. Talvez, algumas dessas escolhas, hoje eu acredite que não façam tanta diferença em onde estou. Mas, outras são tão significativas a ponto de desestruturar qualquer base emocional, se eu não me senti forte e confiante o suficiente. Entretanto, tomada cada decisão, tento mantê-las firmes e sólidas dentro de mim.
Todo mundo sabe que eu me apaixonei loucamente pelo meu professor de literatura no ensino médio, era um amor platônico e bobo, mas, mesmo assim, era  MEU amor platônico e bobo. E sim, talvez isso tenha mudado o rumo da minha escolha profissional. Todo mundo sabe que eu prestei uma faculdade no rumo de Brasília, e a mais perto que pude encontrar, em curto espaço de tempo, por uma paixão, que perdurou, ardeu e acabou.

Mas, escolhido o curso e o lugar, digo que me sinto plena e feliz (mesmo que às vezes, e só às vezes, eu tenha uma vontade louca de fugir para longe, e mudar de curso). Tenho amigos lindos, quanto a isso, nunca vou reclamar com Deus; posso reclamar de amores, desamores, ilusões, jogos, mas, ah! Meus amigos são lindos! Enfim!

Fora tudo isso, sempre fui consciente que meu futuro será esse: Ganharei mal, serei desprezada por pais, alunos e, talvez, por professores já experientes e fartos de trabalhar, e, por fim, não conseguirei passar tudo o que quero passar, com todo o amor que eu sinto pela literatura, para essas crianças que não querem ouvir.
Mas, de tudo, sempre quis salvar algumas pessoas de alguma coisa. Ser a heroína mesmo, por que não? Porque também me foi fadado a sonhar! E se eu o posso, eu o quero, eu o farei! Talvez eu não queira dar aula em escola particular, onde eu vou ganhar melhor, e meus alunos vão andar de Nike, achando que são mais importantes porque pagam meu salário; também não quero dar aula em escola pública, nem de periferia, onde os alunos vão querer riscar o meu carro que eu parcelei em 72 vezes, nem de classe média, onde os alunos não tem dinheiro pra comprar livro, mas tem dinheiro pra comprar celular, iphone, I o diabo a quatro. Eu quero dar aula pra quem quer ouvir! E eu o vou. E não me importar com o acordar cedo ou o andar pra caramba pra chegar, mas que quando eu chegar eu seja recebida com um sorriso no rosto. Talvez meus sonhos sejam bobos, mas na escola que eu vou trabalhar, eu quero alunos que sejam tão sensíveis ao que for passado, quanto à literatura que quero ensinar. 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Post de segunda-feira


Você planeja toda a sua semana, durante um domingo a noite, ainda com um fio de animação, porque, simplesmente, a vida continua nas segundas-feras: Não adiantaria o mau humor, não adiantaria a raiva contra o mundo, tampouco indignar-se com frases clichês que se compartilha no facebook. Mas, a segunda chega, e não por causa dela, você acorda assim, como se nada fizesse sentido, e sua vida tivesse se desnorteado completamente, com um ponto relevante nisso tudo: sem motivos. Você acordou assim e pronto! Não tem mãe que anime, férias que acalme, sonhos que baste. Não tem motivo e também não tem vontade. Você se pega pensando nas escolhas que fez, nas escolhas que faz, no mundo que criou em volta de si. E tudo o que você queria, mesmo, era ter aquela disposição pra estudar pro exame que é na sexta, pra corrigir o tcc que, também, é pra sexta, e pra, enfim, começar a caminhar e fazer outra atividade física pra pagar a promessa que você vem se fazendo desde os 15 anos, que é de começar o regime na segunda!

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Do amor!


Do caminho da faculdade até em casa, eu ouvi Tulipa Ruiz cantando “Devo lhe dizer que a vida curta, que eu amei você, amei sem culpa!”. Eu acho bonito esse amor sem culpa, sem medo. E o amor, no fim, não é quase que um instinto? Se eu, institivamente, amo meus amigos por sê-los quem são e ter a relevância que têm, e amo meus pais. E amo, também, o que não é humano ou o que não tem vida, como as noites chuvosas repletas de trovões, ou uma música que ponho pra repetir quinze vezes, já que ela fala exatamente sobre o que eu sinto, ou, ainda, como eu amo saber que sempre há um dom de amar de novo. E esse amor que ocorre de novo, não aos amigos, família ou situações e objetos, mas amar a alguém que apareceu quando outro fez parecer que esse sentimento tão bonito, fosse banal. A beleza está nisso, ele não o é!

O amor então é uma construção? A gente constrói, teoricamente a quatro mãos e dois corações dispostos. Mas, depois de um tempo ele morre? Com o cair das folhas do calendário, então, as pessoas se acomodam a um outro alguém, a um fim de semana de filmes, sem suspense, sem surpresa? Então o amor vira carinho? Vira rotina? E se se rompe, sente-se falta, porque o amor era isso? Um resto de vida? Um resto de si? E, afinal, não é o comodismo que mata o amor? Ou a gente mesmo que o mata? O mata por não saber mais o que fazer com aquilo que está dentro da gente. E, já que é mutável, uma constante troca de lugares, quando se mata a algum sentimento, ele não tendo para onde ir, a não ser para fora, para um outro alguém, parte.

sábado, 30 de março de 2013

Crônica de uma tarde de hospital!


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.. Ter um parente tão próximo, quanto seu vô, no hospital e passar a tarde toda com ele, inclui que você verá sua família que há muito não via, por mais próxima que seja, nesse momento. Isso quer dizer que você ouvirá perguntas do tipo: “E os namorados?”... Na mosca! Não sei como eu seria mais precisa do que isso!

_E os relacionamentos, Camila?
_Uai, tio! Você quer aprovar algum namoro meu? Quer que eu te apresente alguém?
_Não... Eu não preciso conhecer! Você quem precisa, né!
_Ultimamente, tá difícil conhecer a gente mesmo, quiçá aos outros, né, tio?

... Foi quase isso! Um tapa na cara, uma reflexão, um momento em que eu poderia dizer e disse que o mais importante da nossa própria vida é a gente próprio. O que não exclui os relacionamentos que virão,  já que são precisos e importantes; tampouco os relacionamentos já estáveis, de nós com os outros, independente do tipo.

Se eu pudesse dizer um pouco de mim, dispensaria meu nome, signo, idade, quantidade de irmãos, condições financeiras, curso e estado emocional. Aí eu não diria que me chamo Camila Meloni, tenho 21 anos, taurina, dois irmãos, classe média e abalada com o que o destino prega. Eu apenas diria que em mim tenho sonhos Claricianos e um fluxo de consciência que me faz sentir única. Única para mim, que quase não me conheço e quase sempre me escondo em euforias exageradas e tristezas sem motivo.

Diria que sou fascinada por palavras, elas me encantam. Apaixono-me pela estrutura das orações, por colocações verbais e pronominais, por verbos conjugados corretamente, mas, mais do que isso, gosto da poesia da prosa e a do poema; e da subjetividade que me abre interpretações incríveis: gosto mais do como se escreve do que o que se escreve. Mas, depois de dito, não me venha com atitudes que fogem. As palavras me fascinam, me enganam por um momento, mas um dia o conto acaba, a crônica termina, e, em mim, só fica o que senti de mais profundo!

Mais do que isso, falaria que gosto de fazer sempre os mesmos caminhos; bom, não é um gostar de adorar: Confesso, acomodei-me a eles, do mesmo modo como me apego e me acomodo com a felicidade ou com a tristeza (esta é reconfortante, por vezes). E, paradoxalmente, o sair da rotina me encanta, a quebra de paralelismo, o entrar em metáforas, o mergulhar em antíteses. Lido bem com a distância, quando ela une e separa; e suporto bem as saudades, quando a vontade de mata-la é mutua. Gosto das noites de sono, de sonhos e do próprio gostar. Sou carente e quero perto de mim sempre meus bons e velhos amigos, que são lindos e meus, já que sou possessiva e ciumenta.

Sei que não quero do meu lado alguém que se ache melhor porque tem na ponta da língua datas e respostas para contas matemáticas, tampouco alguém que prolifere clichês e se acha “o intelectual”. Quero alguém que una seus dedos com os meus, e deixe rentes nossos corações. Em verdade, não sei exatamente o que eu quero. Não sei se quero me casar e ter filhos, se quero morar em São Paulo ou no Rio, se vou fazer mestrado ou cursar outra faculdade, não sei se vou passar a tarde no hospital, de novo, ou não. Não sei o que farei, tampouco sei exatamente o que eu quero, mas sei com toda a certeza daquilo que não quero.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Doer-se

Era certo isso: não importava o que diria, mas como diria. Tanto faz se fosse com os olhos, com os gestos, com o silêncio ou com os verbos no subjuntivo ou indicativo, mas, que reconfortasse, redimisse, humilhasse o desapego e fizesse dele uma bobagem... Mas não! Deixou arder, remoer, rimar dores. Pobre! Pensava que se doía por alguém, se doía por si, se doía de um desespero de sentir gelar a ardência de um "por vir".

sábado, 23 de março de 2013

Busca


Encontrei-me, em algum momento, em versos ritmados.
A metrificação me sufocou, e deixei que passasse todo o poema
Para me buscar nos personagens de uma peça,
Nas falas de um teatro, mas tudo era máscara, era tudo encenação!
Despi-me do que encobria meu rosto e descobri meu eu na psicologia,
Induziram-me com um reforço negativo, prendi-me nas teorias, incluso a prática.
Então me pincelaram, perdi-me nas cores, nos desenhos,
Ao fim, acinzentei-me em uma simples caricatura.
Mergulhei, por fim, em uma melodia que me envolveu,
Mas, rente ao ritmo, perdeu-se o tom, perdeu-se a mim!
Agora sei que sempre estive na literatura,
No entanto, abandonei os poemas, fui para a prosa,
Mas carrego sempre em mim a poesia!

quarta-feira, 20 de março de 2013

Entre isso e aquilo


"Eu sempre soube das escolhas eliminatórias que a vida nos impõe. Eu sempre soube que cada momento seria isso ou aquilo, e não os dois. Que a partir do momento que eu optasse em assinalar a letra A, a letra B, automaticamente, seria desconsiderada de vez da minha vida (por mais que fosse a alternativa certa, mas nunca saberemos – a vida é um teste avaliativo sem gabarito no final). Mas, na minha ilusão de menina, eu acreditei que se eu marcasse uma das letras a lápis, depois eu poderia apagar e escolher outra... Engano o meu! Sempre fica uma mancha, um borrão, uma marca desfocada do passado. E se me dizem que eu tenho que fazer escolhas que me deem futuro, eu digo que entre os tempos, eu escolho o presente, e sempre aderirei àquilo que me dê vários agora. Eu cuido do futuro quando ele chegar."

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Pela janela

Era vasto,
era bonito,
mas mal sabia das tempestades 
que inundavam ruas,
amedrontavam expectativas
e trovejavam em sonhos. 

Iria durar, 
talvez para sempre,
se preso à retina de olhos com memória longa,
se preso a coração insistente de tanto bater,
se preso em dedos que tocam sem nunca se esconder!

Era isso:
tão subjetivo que quase não era nada,
era os dias presos em uma estrada que nunca cessa de chegar,
era a viagem que vinha e retomava,
com medo, retornava,
mas se ia calmo e além, sabendo a quem estaria na outra ponta. 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Quase manhã


Sentia muito, sabia que sentia. Um enlace de raiva, culpa, medo e, talvez, rancor. Sentia muitíssimo pelo telefone que não atendeu, a mensagem que não respondeu, a vontade que não sentiu. Ana sentia muitíssimo por tudo isso e sentia mais por saber que era cedo, tão cedo para as brigas em silêncio, para a raiva tanta que um olhar nos olhos fulminava, era cedo demais para começar e para terminar.

                Não queria saber como se nadava em um mar profundo, não queria se levantar da cadeira e desmoronar com o comodismo. Queria um filme que a tirasse de si e levasse pra longe, um tele transporte, uma máquina, um mecanismo, um talvez. Queria Pasárgada, de Manuel Bandeira, os amores de Vinícius de Moraes, a capacidade de Capitu, de Machado de Assis, a imagem presa a algum espelho, como Cecília Meirelles.

                Não tinha saída, tinha alguns livros na cabeceira, e era neles onde se perdia, se encontrava, se emaranhava de amor e ódio. Era cedo, sabia Ana. Cedo pra dizer se fica ou se passa, se brinca ou se estuda, se guarda o dinheiro e não compra o doce ou se compra o doce e não guarda o dinheiro. Era cedo demais pra ser gente grande!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Constelação particular


Chove. Não que a chuva faça de mim, um alguém mais emotivo e saudosista. Só listo que chove, porque, sou só eu, minhas lembranças e um barulho delicioso que compenetra meus ouvidos, e me deixa tranquila para sermos apenas nós três.

A chuva, que aos poucos vai aumentando e embalando um ritmo, me deixa a vontade para retratar um fato que me ocorreu quando eu ainda era muito criança. Meu tio ainda era solteiro, morava com meus avôs, e, sem sombra de dúvidas, era o meu porto seguro (não que eu precisasse ser segura de alguma coisa, talvez só de mim mesma). Enfim, em um desses dias que a gente vai visitar a vó, lembro-me de um sorriso esboçado pelo meu tio, que me pegou pelo braço, naquela tarde, e me disse: “Camila, vou te mostrar as estrelas”. Eu, sem entender, e logo sem também enxergar, já que ele tampou com só uma mão os meus olhos, me levando para o quarto em que ele dormia, e ali, quando me deixou enxergar, as luzes apagadas, a janela fechada, que faziam um quarto mais escuro, só pude ver um brilho que vinha de alguns colantes, em de forma estrelas e lua, no guarda roupa.

Confesso, me encantei! Talvez com o brilho que os colantes refletiam, talvez com as estrelas que eu me tinha tão perto. Mas, acredito, que o meu maior encanto foi com o encanto que ele teve de me mostrar a sua constelação particular!

Hoje, ele é casado, tem filhos e talvez não tenha mais tempo para seus sobrinhos, para as estrelas e nem para os desenhos animados. E eu, já não sou mais tão criança, já não moro mais com meus pais, não o chamo mais de “tio” e, talvez, eu nem tenha mais tempo de observar o céu.  Mas, de tudo, a certeza de que, assim como ele, naquele momento, encantava a uma criança com algo bonito, a minha alma se sente tão menina por ainda me encantar com as coisas singelas e brilhantes. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O findar


                Ana se sentia inquieta diante daquele relógio preso na sua parede, que parecia movimentar-se, e, ao mesmo tempo, as horas pareciam sempre iguais. Os dias eram miméticos aos que já passaram, os medos, os segredos, o passado, todos eram sempre os mesmos. Talvez fosse isso o que mais incomodasse Ana: A não interferência do presente no passado – como se ela tivesse parado de fazer história em sua história! As pessoas foram se retirando de sua vida, com um caminhar leve, saindo à francesa, percorrendo suas via crúcis, enquanto Ana tampouco enxergava a cruz!

                Não era exatamente solidão, era estar estagnada de medo diante de um mundo novo que estava por conhecer. Já não era mais uma menina, era uma mulher! O mundo havia posto conceitos em seu modo de pensar e, de repente, ela era posta diante de algo tão novo e tão antigo quanto a sua própria imagem, seu próprio futuro: seu presente.

                Ana não queria estar ali diante do relógio, presa a rotina que consumia seus dias. Queria viver, ver, sobreviver os mares, lugares, mas Ana sabia que querer é algo que ia além do seu desejar, e, muitas vezes, era esperar que o relógio findasse horas para que, enfim, pudesse percorrer lugares.